Fazendas de bots nas redes sociais: entenda como funciona a manipulação de engajamento digital

A recente apreensão de uma estrutura com robôs em Santa Cruz de la Sierra reacendeu os alertas sobre fazendas de bots nas redes sociais, apontadas por especialistas como um dos principais mecanismos de manipulação de engajamento no ambiente virtual.

A operação ocorreu em um endereço ligado ao consultor argentino Fernando Cerimedo, detido na Bolívia após denúncias de envolvimento em uma tentativa de feminicídio contra a advogada Nadia Beller.

O consultor construiu carreira atuando em estratégias digitais de lideranças de direita na América Latina e já havia participado de discussões públicas contestando resultados das urnas brasileiras em 2022.

A investigação conduzida pelas autoridades locais identificou equipamentos utilizados para manter uma grande quantidade de perfis automatizados ativos ao mesmo tempo.

O que são fazendas de robôs e como operam

Sistemas automatizados criam e gerenciam contas falsas que imitam o comportamento de usuários comuns. O objetivo principal é interagir com publicações por meio de curtidas, compartilhamentos e comentários.

Essas estruturas conseguem gerenciar milhares de perfis simultaneamente para direcionar debates na internet, influenciando a percepção pública em momentos decisivos.

Simulação de apoio popular

O pesquisador Reynaldo Aragon explica que a principal função dessa tecnologia é forçar a impressão de que existe um movimento espontâneo em torno de determinado assunto.

“Muitas dessas contas repetem uma expressão e impulsionam uma hashtag, compartilham o mesmo conteúdo e interage entre si em pouco espaço de tempo. Com isso, produzem artificialmente volume e velocidade nas redes sociais”, disse à Agência Brasil.

Manipulação dos algoritmos

O doutor em ciência política Alexandre Arns Gonzales pontua que as plataformas priorizam postagens com alto volume de interação, o que torna as redes inautênticas um recurso atrativo.

“Essas fazendas de cliques são utilizadas para tentar alimentar artificialmente essas métricas de visualização e engajamento, servindo de instrumento para fazer ataques ou defesas coordenadas de determinada conta, tema, assunto ou candidato”, explicou.

Engajamento inautêntico versus público real

O principal risco dessas operações é a capacidade das contas falsas de furar a bolha inicial e alcançar pessoas reais, transformando conteúdos fabricados em pautas de debate comum.

Como exemplo desse impacto, Aragon relembra a distribuição de matérias falsas que atingiram dezenas de milhões de usuários durante o pleito de 2018 no Brasil.

“A operação tenta dar impulso inicial para que aquele conteúdo alcance pessoas reais e atravesse os limites de uma rede artificial. Muitos desses bots conseguem, inclusive, dialogar com pessoas reais”, acrescentou Reynaldo Aragon.

Casos internacionais

A atuação de redes automatizadas é registrada em diversas regiões do mundo. Em 2020, investigações apontaram a remoção de centenas de páginas mantidas por uma empresa na Tunísia voltada para interferir na política de países africanos.

“Aproximadamente 3,8 milhões de contas do Facebook seguiram uma ou mais dessas páginas, com quase 132 mil grupos administrados por operação e mais de 171 mil seguindo suas contas no Instagram”, informou o Laboratório DFR, que estuda desinformação e segurança digital.

Custos de manutenção e fiscalização

Manter um centro de contas automatizadas exige investimento significativo em infraestrutura, chips de celular e servidores dedicados para sustentar o volume de tráfego diário.

Alexandre Gonzales destaca que esse custo financeiro faz com que essas estruturas apareçam com frequência em relatórios de segurança de grandes empresas de tecnologia.

“A Meta e o Google caracterizam essas práticas como redes de comportamento inautêntico coordenado”, disse Alexandre Gonzales.

Papel das plataformas e autoridades

A fiscalização desse tipo de rede divide opiniões entre os especialistas sobre a eficácia das medidas adotadas pelas empresas e órgãos reguladores.

“Se essas fazendas de bots atacarem a lisura do processo eleitoral, os sistemas de identificação de comportamentos inautênticos da Meta, do Google e do TikTok podem identificar e apresentar isso dentro do âmbito do plano de conformidade ou no âmbito do conselho que o TSE criou”, comentou Gonzales.

Por outro lado, Aragon ressalta as limitações do combate dependente apenas das plataformas digitais.

“Para combater esse tipo de manipulação, seriam necessárias investigações policiais ou de atores da sociedade civil. Não podemos contar com as plataformas porque isso significa regulação da informação circulante e eles não querem essa regulação”, comentou.

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