O Tribunal de Contas da União (TCU) iniciou, em junho, uma auditoria para investigar a execução do pavilhão brasileiro na Expo 2025 Osaka, no Japão. A estrutura, organizada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), está sob suspeita de irregularidades na escolha e substituição do projeto arquitetônico original. A investigação motivou a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) a apresentar um pedido formal de informações ao governo federal.
O pavilhão, que representou o país no evento internacional ocorrido de 13 de abril a 13 de outubro de 2025, mudou de um projeto arquitetônico selecionado por concurso nacional para uma estrutura emergencial e pré-moldada, com conceitos artísticos como “floresta inflável” e “renascimento”. A ApexBrasil, entidade pública que promove produtos e serviços brasileiros no exterior, é vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), pasta chefiada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
Pedido de informações de Damares Alves e críticas
A senadora Damares Alves protocolou, em 21 de outubro, um Requerimento de Informações (RQS nº 794/2025) questionando o gabinete do ministro Geraldo Alckmin sobre a troca do projeto vencedor do concurso nacional por uma estrutura pré-moldada, acusando a ApexBrasil de falta de transparência nas contratações. O prazo para resposta oficial é de até 30 dias.
De acordo com a parlamentar, o projeto original vencedor do concurso, do renomado escritório Studio MK27 de Marcio Kogan, foi cancelado e substituído por um “galpão pré-moldado (Rental Pavilion)”. Damares criticou que a mudança representou uma redução drástica da área e da identidade arquitetônica, mas, paradoxalmente, não gerou economia de recursos, com gastos que ultrapassaram os $20 milhões, valor equivalente ao orçamento do projeto autoral descartado.
A senadora afirmou que o projeto, que deveria ser um “símbolo da inovação brasileira”, se tornou uma “estrutura improvisada” que “envergonha o país perante o cenário internacional”. Ela também levantou indícios de conflito de interesses na contratação da curadora da exposição.
No requerimento, Damares solicitou explicações formais sobre:
- A troca do projeto original por um galpão pré-moldado.
- A ausência de critérios técnicos na contratação artística.
- Os possíveis aditivos sucessivos aos contratos e os valores pagos.
- As falhas operacionais, incluindo um princípio de incêndio.
- A responsabilidade e supervisão do MDIC sobre a ApexBrasil.
Ela justificou que “há fortes indícios de que a contratação direta tenha se fundamentado em relações pessoais e não em mérito técnico”, comprometendo a imagem do Brasil e levantando suspeitas sobre o uso de verbas públicas.
Auditoria do TCU sobre as irregularidades
O pedido de auditoria no TCU foi feito pelo ministro Walton Alencar Rodrigues, que informou ter visitado o pavilhão em Osaka e demonstrado preocupação com o fato de o espaço apresentado não corresponder ao projeto vencedor do concurso público.
O ministro Rodrigues criticou a decisão da atual gestão da ApexBrasil de não dar prosseguimento ao projeto classificado em primeiro lugar e de não convocar os demais participantes do certame, destacando que as razões eram “desconhecidas”.
Ele também apontou a falta de transparência da agência na divulgação dos contratos, critérios de seleção e valores pagos, cujo custo estimado é de “centenas de milhões de reais”. O ministro ainda mencionou o risco de perda de independência da auditoria interna da entidade, que está vinculada à Presidência da ApexBrasil, o que pode configurar um “conflito de interesses”. A fiscalização do TCU segue em andamento.
O que diz a ApexBrasil em sua defesa
Em resposta às questões levantadas, a ApexBrasil defendeu-se, alegando que a mudança de projeto foi técnica. Segundo a agência, o projeto original (tipo “A”) apresentava riscos de inexequibilidade dentro do prazo devido à inflação e à escassez de fornecedores no Japão, o que motivou a mudança para o modelo “X”, menor e menos complexo, sugerido e oferecido para construção pelo próprio governo japonês.
A agência também destacou o sucesso do pavilhão, informando que recebeu mais de $1,5$ milhão de visitantes ao longo dos seis meses de exposição e obteve o prêmio Silver (Prata) da organização na categoria “Conceito”, sendo citado em publicações internacionais.
Sobre o investimento, a ApexBrasil afirmou que o custo total foi de cerca de R$ 190 milhões, um valor R$ 17 milhões mais baixo do que o gasto na Expo anterior, em Dubai.
Em relação ao princípio de incêndio durante a montagem em abril de 2025, a agência explicou que um disjuntor aqueceu, provocando fumaça, mas sem causar danos estruturais ou feridos, permitindo a rápida retomada da obra e a inauguração junto às demais nações.
A ApexBrasil ressaltou que o pavilhão recebeu delegações oficiais e empresariais, incluindo a princesa Kako, do Japão, ministros e parlamentares brasileiros, e que a participação brasileira teve ampla repercussão midiática, ajudando a “projetar a imagem do país como referência em diversidade, inovação e sustentabilidade”.
Críticas de empresário e influenciador digital
Além das críticas políticas, o pavilhão também recebeu questionamentos do empresário e influenciador digital Marcos Freitas, focado em empreendedorismo. Após visitar a exposição, ele divulgou um vídeo nas redes sociais manifestando “vergonha do Brasil na maior feira de inovação do mundo”.
Freitas criticou o conteúdo artístico, afirmando que o que deveria ser uma vitrine de inovação acabou soando mais como “manifesto político disfarçado de arte”. Ele contrapôs que, enquanto outros países exibiam tecnologia, energia limpa e futuro, o Brasil “decidiu encenar ‘a respiração da floresta’ e ‘a crise da humanidade'”. O empresário completou que o país “insiste em vender discurso no lugar de resultados”.