O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou um movimento de recomposição de sua base de apoio no Congresso Nacional, após uma série de derrotas e a demissão de indicados políticos de deputados que votaram contra uma medida provisória sobre aumento de impostos.

A estratégia, coordenada pela ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), visa atrair novos aliados, recompensar parlamentares fiéis e consolidar o apoio para votações prioritárias até o final do ano legislativo.

Hugo Motta e o papel central na negociação

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem sido um interlocutor chave nas negociações. Ele participou de uma reunião com a ministra Gleisi Hoffmann, o líder do PP na Câmara, Doutor Luizinho (RJ), e o ministro do Esporte, André Fufuca, para discutir a repactuação da base.

Segundo parlamentares, Motta tem atuado como ponte entre o Palácio do Planalto e as bancadas do PP e do União, especialmente após o rompimento formal dessas siglas com o governo. Assessores da SRI procuraram deputados nos últimos dias, buscando a reaproximação após as demissões.

O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), confirmou o movimento. “Vamos repactuar a construção dos partidos que estão dispostos a caminhar com o governo para aprovação daquelas matérias que são estratégicas para o país e para o governo”, afirmou.

Motta também possui um papel estratégico nos seus próprios interesses eleitorais na Paraíba, estado de apoio ao presidente Lula. Ele atuará como interlocutor entre o governo e os interessados em novas nomeações, o que deve ampliar sua influência sobre as bancadas.

Questionado sobre o apoio do Republicanos para 2026, Motta manteve a cautela, ressaltando que o partido é de centro-direita e possui quadros, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, vistos como possíveis candidatos, mas evitou uma definição formal para o próximo ano. Na Paraíba, ele disse que sua posição política deve ser responsável e não atrapalhar o dia a dia da Câmara.

Testes e prioridades na pauta

O primeiro teste da nova articulação governista é a tentativa de aprovação da PEC da Segurança, que ganhou destaque após uma operação no Rio de Janeiro. A aproposta é vista como um esforço do presidente Lula para capitalizar a pauta de segurança, mas enfrenta forte resistência da oposição e de governadores críticos ao texto.

Nos bastidores, o presidente tem manifestado preferência por “refazer pontes” em vez de promover uma reforma ministerial. Contudo, interlocutores admitem que mudanças na Esplanada não estão descartadas se forem necessárias para encerrar a crise na base aliada.

Distribuição de cargos e emendas

O Planalto pretende utilizar o novo ciclo de nomeações como instrumento para consolidar uma base mais estável. Auxiliares do presidente afirmam que o objetivo é mapear cada indicação política e monitorar a fidelidade dos parlamentares nas votações estratégicas, como a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e projetos econômicos até dezembro.

Paralelamente à recomposição de cargos, o governo deve liberar cerca de R$ 3 bilhões em emendas do Ministério da Saúde. Desse total, R$ 320 milhões serão direcionados à oposição, em um gesto para retomar o diálogo com parlamentares de centro e direita.

Os recursos serão aplicados em obras e compra de equipamentos de saúde. O valor total previsto para emendas no Orçamento Federal é de R$ 50 bilhões, cuja execução está sob análise do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu o pagamento automático dessas verbas.

Hugo Motta reconheceu que o diálogo entre o Palácio do Planalto e a Câmara “ainda tem muito o que melhorar”.

Resistência e riscos de novas derrotas

Líderes partidários fora da esquerda demonstram resistência em formalizar apoio ao governo, enquanto o PL de Jair Bolsonaro articula com siglas do Centrão uma aliança única para 2026. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) criticou o atual momento do governo, afirmando que “o Lula é um avião voando sozinho” e que o centro pode alçar voos mais altos. Nogueira defende nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Ratinho Júnior (PSD) para a direita em 2026.

Apesar dos esforços, o governo Lula pode enfrentar novas derrotas, como na tentativa do Centrão de reverter o acordo que garantia ao PT a indicação do próximo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

Outra ameaça é a pressão crescente no Congresso para derrubar os vetos de Lula à Lei Geral do Licenciamento Ambiental, um ponto de atrito com a bancada do agronegócio.

A relação entre Executivo e Legislativo também se deteriorou após o presidente Lula afirmar que o Congresso Nacional “nunca teve tão baixo nível”, declaração que foi feita na presença de Hugo Motta. O líder da oposição na Câmara, Luciano Zucco (PL-RS), classificou a fala como “irresponsável” e “antidemocrática”, defendendo que insultar o Parlamento é um “desrespeito à representação popular”.

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