A disputa comercial entre Estados Unidos e China tem favorecido de maneira significativa o produtor de soja brasileiro. Em um movimento de retaliação às tarifas impostas pelo governo americano, a China suspendeu a compra da oleaginosa dos EUA, principal concorrente do Brasil no setor.

O recente recrudescimento nas tensões, com a taxação americana sobre produtos chineses, sugere que as exportações de soja brasileira devem atingir novos e sucessivos recordes nos próximos meses. Em setembro, por exemplo, as vendas da commodity para a China já apresentaram um aumento de 57,1% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

O desafio do setor, contudo, é manter esse volume de vendas externas em um contexto geopolítico instável, ao mesmo tempo em que precisa gerenciar riscos como quebras de safra e o possível desabastecimento do mercado interno, o que poderia levar a uma alta de preços.

Tarifa americana torna soja brasileira mais competitiva na China

A escalada da guerra comercial começou quando o então presidente americano, Donald Trump, anunciou tarifas adicionais sobre produtos chineses em fevereiro, buscando proteger a economia interna. Pequim respondeu com tarifas recíprocas sobre mercadorias americanas.

Após uma série de barreiras tarifárias, os países estabeleceram uma trégua temporária, com a redução das taxas de importação mútuas. No entanto, a soja americana foi taxada em 20% pela China por ser um produto economicamente estratégico. Essa taxação a tornou menos competitiva no mercado chinês, abrindo um espaço considerável para o aumento das compras da soja brasileira.

China: o maior importador global

A China é o maior mercado consumidor e o principal importador mundial de soja, respondendo por 61,1% das compras totais da oleaginosa. A demanda é alta devido ao uso do grão na produção de ração para suinocultura e avicultura. O país supre apenas 15% de sua necessidade com produção interna, dependendo de 85% de grãos importados.

Em 2024, a China importou mais de 105 milhões de toneladas da commodity. O Brasil forneceu 71,1% desse volume, enquanto os Estados Unidos ficaram com 22%. Argentina e Uruguai, os próximos na lista, tiveram volumes bem inferiores.

O impacto da suspensão do comércio na economia americana é notável: a China foi o principal destino das exportações de soja dos EUA em 2024, representando 51,3% do total exportado e 22,5% de toda a produção americana.

China suspende a compra de soja dos EUA

Tradicionalmente, Brasil e Estados Unidos exportam soja em janelas de tempo diferentes devido aos seus ciclos de plantio e colheita. A China concentra suas importações brasileiras entre fevereiro e setembro, enquanto a janela americana se abre com a colheita de outono no Hemisfério Norte.

Em 2025, o mercado chinês, após as primeiras compras da safra americana anterior, simplesmente parou de importar o grão dos EUA a partir de maio. A soja americana foi substituída por importações do Brasil e, em menor escala, da Argentina.

A partir de julho, a China ampliou as encomendas de soja brasileira para reforçar seus estoques. Em setembro, os embarques brasileiros para portos chineses somaram 6,8 milhões de toneladas, um aumento de 57,1% em relação ao ano anterior. Neste mês, a China foi o destino de 92,3% do volume total de soja exportada pelo Brasil.

A revista britânica The Economist resumiu a situação: “Dizem que ninguém vence uma guerra comercial. Certamente, há poucos perdedores maiores do que os produtores de soja nos Estados Unidos. […] Mas houve até agora um grande vencedor: os produtores de soja do Brasil”.

Riscos e desafios da dependência do mercado chinês

O aumento das exportações brasileiras para a China não está isento de riscos. A dependência excessiva de um único mercado expõe o setor a potenciais frustrações, como um eventual acordo comercial entre Washington e Pequim.

Especialistas alertam para a necessidade de o Brasil se posicionar de forma estratégica, considerando as mudanças nos cenários geopolíticos e na política interna chinesa, que também busca reduzir a dependência de um único fornecedor. Além disso, o Brasil tem recebido notificações da China sobre questões como pragas e uso de fungicidas, exigindo maior atenção de toda a cadeia produtiva para evitar complicações nas exportações.

Fatores climáticos, como o El Niño e o La Niña, também representam um risco significativo. A previsão de formação do La Niña entre dezembro e fevereiro, embora com efeitos brandos, pode aumentar o risco de estiagens no Sul do Brasil e comprometer a oferta.

Outros desafios incluem a pressão de custos (fertilizantes, defensivos, frete) e a capacidade de armazenagem, cada vez mais insuficiente para o volume crescente da produção nacional. A falta de recursos e o encarecimento das estruturas de armazenagem dificultam os investimentos dos produtores.

Exportações recordes e a pressão sobre o mercado interno

A mudança no contexto internacional também afeta o mercado interno brasileiro. As exportações elevadas pressionam os estoques internos, encarecendo a matéria-prima para a indústria local de esmagamento, que já opera com margens apertadas.

Quanto mais soja in natura o Brasil exporta, menor a disponibilidade do grão para esmagamento. Esse processo gera farelo e óleo, insumos cruciais para o abastecimento interno e a indústria de proteínas. Essa escassez já tem levado algumas esmagadoras a praticarem preços de farelo mais altos, descolados da Bolsa de Chicago.

Domínio brasileiro no mercado chinês se consolidou em primeiro mandato de Trump

A disputa comercial não é uma novidade, e o Brasil já havia se beneficiado dela anteriormente. Até 2012, os EUA atendiam a maior parte da demanda chinesa. O Brasil superou as exportações americanas em 2013, e a diferença se aprofundou em 2017, com a posse de Donald Trump. A participação brasileira nas importações chinesas subiu para 53,3%, e a americana caiu para 34,4%.

A grande virada ocorreu em 2018, quando Pequim retaliou as tarifas americanas taxando a soja dos EUA. Os importadores chineses buscaram fornecedores alternativos, e o Brasil, beneficiado, atingiu 75,1% da participação no mercado chinês naquele ano.

Embora o acordo comercial “Fase Um” entre EUA e China, assinado em 2020, previsse a compra de volumes adicionais de produtos americanos, incluindo soja, as metas não foram totalmente cumpridas pelos importadores chineses, que optaram pelo produto brasileiro, mais competitivo.

Frustração dos produtores de soja dos EUA com a política comercial

Os produtores de soja americanos têm manifestado frustração com a política comercial de Trump contra a China. A Associação Americana de Soja (ASA) tem se posicionado contra o uso de tarifas como tática de negociação, alertando que a guerra comercial beneficia produtores de países como o Brasil.

Apesar dos apelos públicos de Trump para que a China quadruplicasse a compra de soja americana, as ações do governo têm decepcionado a categoria. A ASA chegou a criticar o anúncio de ajuda financeira à Argentina por parte do governo americano, enquanto o país vizinho reduzia os impostos de exportação para vender sua soja à China.

Diante do cenário de crise, Trump anunciou uma ajuda financeira aos agricultores, mas o repasse deve demorar, agravado pelo shutdown (paralisação) do governo. Os produtores de soja americanos, representados pela ASA, têm se manifestado “extremamente desapontados” com os últimos desdobramentos, que veem como prejudiciais a todos em uma guerra comercial.

Apesar da escalada das tensões, com o anúncio de uma tarifa de 100% contra a China, o secretário do Tesouro dos EUA indicou que houve uma “desescalada significativa” e que o encontro entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, previsto para a Coreia do Sul, ainda deve ocorrer.

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