O conjunto de medidas de estímulo econômico e social, apelidado de “kit reeleição”, que o Congresso Nacional tem aprovado em benefício do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cria uma crise fiscal latente com potencial de explodir após as eleições de 2026. Embora populares no curto prazo, essas ações, que incluem ampliação de programas sociais e benefícios tributários à classe média e de baixa renda, escondem um risco fiscal insustentável.

Quem assumir o Palácio do Planalto em 2027 enfrentará um dilema dramático: promover um dos maiores cortes de gastos da história recente ou abandonar o arcabouço fiscal, o novo conjunto de regras que visa limitar os gastos públicos.

O risco do pouso forçado na economia

Economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e da Mapfre Investimentos alertam que o pacote de estímulos para a campanha eleitoral de 2026 levará a um cenário insustentável para as finanças públicas.

A deterioração da dívida pública e a rigidez orçamentária

A trajetória do endividamento público já reflete essa deterioração. A dívida bruta saltou de do Produto Interno Bruto (PIB) em dezembro de 2022 para em julho de 2025. Projeções indicam que o cenário piorará: o Instituto Fiscal Independente (IFI) estima do PIB até o fim de 2026, e a mediana do mercado financeiro aponta para .

O principal motor desse crescimento é a rigidez orçamentária:

  • Mais de dos gastos primários da União (que excluem o pagamento de juros da dívida) são obrigatórios.
  • Essas despesas crescem automaticamente, atreladas ao salário mínimo ou a fatores demográficos, como o envelhecimento populacional.
  • Essa característica limita a capacidade de controle de gastos sem profundas mudanças constitucionais.

Os primeiros sinais desse risco já são visíveis na economia: a rigidez e o crescimento acelerado da dívida pública se traduzem em juros mais altos e inflação persistente.

A flexibilização dos precatórios: adiando o problema

Em vez de promover um ajuste fiscal, o governo optou por adiar o enfrentamento do problema. A PEC dos Precatórios (PEC 66/23), promulgada em setembro de 2025, ilustra essa estratégia:

  • Ela exclui as despesas com precatórios (dívidas do governo reconhecidas pela Justiça) do limite de gastos do arcabouço fiscal.
  • A medida reduz drasticamente os juros dessas dívidas, que caem de Selic ( ao ano) para IPCA (inflação) mais .
  • Os gastos com precatórios também não serão contabilizados para a meta de resultado primário de 2026 e só serão reincorporados gradualmente a partir do ano seguinte.

Essa flexibilização é vista por analistas como uma clara postergacão do problema fiscal, corroendo a confiança dos investidores.

Conflito entre política fiscal e monetária

O impacto imediato da estratégia de expansão fiscal é o conflito com a política monetária, gerando um custo concreto para a economia.

O crescimento de gastos e a alta dos juros

O pesquisador Samuel Pessôa (FGV Ibre) calcula que os gastos públicos crescerão em termos reais em 2026, justamente no auge da campanha eleitoral, o que faz parte de uma estratégia deliberada de estímulo. A contradição é evidente:

  • O governo acelera os gastos (política fiscal expansionista).
  • O Banco Central precisa elevar juros para conter a inflação (política monetária contracionista).

Essa contradição resulta na manutenção da segunda maior taxa real de juros do mundo no Brasil ( ao ano, descontada a inflação), segundo a consultoria MoneYou, perdendo apenas para a Turquia.

Economia artificialmente aquecida

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre, alerta que o “kit reeleição” potencializará o aquecimento artificial da economia no início de 2026, somando-se aos tradicionais reajustes do salário mínimo e aposentadorias. Essa situação gerará uma pressão inflacionária adicional em um cenário macroeconômico já vulnerável.

O custo do impulso fiscal inicial

Diferentemente de administrações anteriores, o governo Lula inverteu o ciclo político, iniciando o mandato com forte impulso fiscal por meio da Emenda Constitucional da Transição (aumento permanente de gasto de do PIB). O “kit reeleição” soma R$ 251,9 bilhões em estímulos, incluindo a expansão do Bolsa Família e o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda.

Analistas da Mapfre Investimentos projetam a paralisia de reformas estruturais no médio prazo, um histórico comum em anos eleitorais, o que agrava o cenário. A instituição é categórica: a economia brasileira apresenta uma das piores combinações entre nível de endividamento e crescimento do PIB.

A encruzilhada de 2027

A paralisia política e o aumento de gastos tornam o ajuste de 2027 inevitável. Os juros elevados já encurtaram o horizonte temporal da economia, inviabilizando investimentos produtivos e restando apenas a manutenção artificial do consumo via gasto público. Quando esse último motor falhar, o ajuste se imporá por necessidade matemática.

O próximo presidente enfrentará duas opções:

  1. Cortes históricos em programas sociais e direitos adquiridos, diante de mais de dos gastos engessados.
  2. Mudar as regras fiscais (abandonar o arcabouço) para acomodar um Estado maior e mais caro, arriscando uma crise de confiança e uma espiral inflacionária.

O Orçamento de 2026, na visão do FGV Ibre, não será lembrado pelos recursos a ministérios, mas pelo enredo de um governo que buscou conciliar disciplina fiscal com agenda social em meio ao peso da dívida e às pressões eleitorais.

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