Os últimos meses têm sido marcados por uma série de confrontos na Universidade de São Paulo (USP), notadamente entre membros do grupo União Conservadora e estudantes ligados à militância de esquerda. Estes incidentes trouxeram à tona o escalonamento da chamada “guerra cultural” dentro das instituições públicas de ensino superior do país.

As hostilidades tiveram início em maio, quando representantes da União Conservadora visitaram a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Inicialmente, o grupo estava no campus para coletar assinaturas para um projeto de lei que propõe o exame toxicológico obrigatório para estudantes manterem suas matrículas em universidades públicas.

A tensão, no entanto, começou a crescer quando membros do grupo conservador passaram a retirar e rasgar cartazes com temáticas políticas, afixados por coletivos estudantis no vão do prédio de Geografia e História. Um dos cartazes removidos, de aproximadamente cinco metros de altura, continha a frase “No Brasil e no mundo derrotar pelas ruas a extrema-direita” e era assinado por um grupo de extrema-esquerda ligado à corrente internacional Socialismo ou Barbárie (SoB).

Na ocasião, os conservadores foram expulsos por estudantes, com empurrões e gritos como “argumento para fascista é porrada”. Apesar disso, o grupo conservador retornou ao campus diversas vezes, gravando vídeos que mostram a remoção de mais cartazes e discussões com alunos e professores.

Personalidades políticas, como o deputado estadual Lucas Pavanato e o ex-vereador Fernando Holiday, ambos do PL, também acompanharam o grupo em algumas ocasiões. Em um desses encontros, uma bandeira de Israel, levada pelos conservadores, foi tomada e queimada pelos estudantes.

A defesa da universidade pública e a judicialização dos conflitos

O pico da tensão motivou o diretor da FFLCH, Adrián Fanjul, a organizar, no dia 2 de setembro, o ato “Em defesa da FFLCH: a universidade pública é do povo”. O evento, segundo Fanjul, visava defender a USP de “invasões da extrema-direita, que busca afastar o povo das universidades públicas do país”.

Os confrontos já resultaram em ações judiciais movidas por ambos os lados. O deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL) protocolou uma representação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP), solicitando a abertura de inquérito criminal para investigar a conduta de Pavanato e dos membros da União Conservadora. O pedido incluía também a proibição da entrada desses indivíduos nas dependências da USP.

Em contrapartida, os representantes conservadores registraram queixas de agressão física contra estudantes e planejam uma denúncia ao MP-SP pedindo o afastamento do diretor da FFLCH, sob a alegação de que ele estaria incentivando o uso político-ideológico da universidade.

Por que a FFLCH está no centro do debate

Segundo líderes da União Conservadora, a escolha da FFLCH como principal palco das ações deve-se à forte influência que o setor recebe de militantes radicais de esquerda.

O ato de 2 de setembro, convocado para se contrapor à presença da União Conservadora, ilustra essa influência. O evento foi organizado e apoiado por diversos militantes de esquerda, incluindo nove deputados estaduais do PSOL e uma deputada do PT. O encontro acabou se transformando em um manifesto contra Israel, após o Exército israelense interceptar dezenas de barcos que tentavam furar o bloqueio a Gaza no dia anterior.

Um funcionário da FFLCH, que teria integrado a flotilha em um período que “articulou férias com afastamento”, era um dos ativistas políticos brasileiros presentes. O próprio diretor da FFLCH, Adrián Fanjul, é conhecido por manifestar publicamente sua visão política, sendo presença constante em atos de esquerda e um crítico ferrenho da direita.

A atuação política vai além. Docentes da faculdade frequentemente organizam ou participam de atos contrários à direita. Uma semana antes do evento que mirava a União Conservadora, por exemplo, o movimento Socialismo ou Barbárie promoveu um debate na FFLCH com o tema “Desafios e tarefas para derrotar a extrema-direita”, que contou com a participação do professor de história da própria faculdade, Henrique Carneiro.

O ativismo político exacerbado não parece ser um problema para o diretor Adrián Fanjul. Em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, ele defendeu os atos político-partidários e a presença de bandeiras de esquerda na faculdade, afirmando que “as práticas culturais e políticas na universidade são necessárias e formativas, integram seu caráter público e seu ambiente”.

Próximos passos da União Conservadora e a defesa do diretor

Em entrevista, Jesse Henrique Barbosa, um dos líderes da União Conservadora, afirmou que o grupo irá reduzir as ações presenciais na FFLCH, mas priorizará atuações na esfera jurídica e política em relação à USP, com planos de estender suas ações a outras universidades.

“Em relação à USP, por enquanto a gente vai fazer uma briga mais jurídica e política. A partir de agora, seremos mais ativos politicamente nessa pauta dentro da Assembleia Legislativa”, declarou Barbosa. O principal aliado do movimento na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) é o deputado Tenente Coimbra (PL), além de Lucas Pavanato.

Uma das prioridades do grupo é avançar com o projeto de lei que propõe o exame toxicológico nas universidades. “Nosso objetivo sempre foi acabar com as drogas na universidade. Fomos para discutir com os alunos esse projeto de lei. A FFLCH, por ser da faculdade de Filosofia, em tese deveria ser mais aberta ao diálogo, mas isso se provou o contrário”, disse Barbosa.

O advogado Ronald Todorovic, que representa Victor Ruiz, um dos primeiros conservadores a atuar na USP, informou que apresentará uma denúncia ao Ministério Público contra o diretor da FFLCH e contra a USP nos próximos dias, solicitando o afastamento imediato de Fanjul.

Todorovic considera que as tentativas de impedir a entrada dos conservadores na USP são inconstitucionais. Ele defende que o grupo cumpre uma função jornalística, ainda que indireta. “No momento em que eles tentam ficar num cerco fechado e não querem mostrar isso para o público, é sinal de que entendem que aquilo é errado”, declarou o advogado, mencionando que o grupo teria identificado consumo excessivo de drogas e álcool no campus.

Posicionamento da FFLCH e das autoridades

A assessoria de imprensa da Reitoria da USP informou que não se pronunciaria sobre o caso.

O diretor da FFLCH, Adrián Fanjul, por sua vez, divulgou uma nota. Ele alegou que “grupos alheios à universidade irrompem em um espaço semiaberto, arrancam faixas de coletivos estudantis, insultam alunas e alunos, gravam imagens sem autorização das pessoas; e outras provocações, esperando respostas violentas, para registrar e divulgar vídeos manipulados”.

Fanjul reforçou a posição da faculdade em relação às manifestações estudantis: “Permitimos, estimulamos e defendemos toda expressão de setores da comunidade que não ofenda os direitos humanos e a dignidade das pessoas”.

O diretor também listou as medidas tomadas para coibir as ações dos conservadores, incluindo boletins de ocorrência, ofício à Secretaria de Segurança Pública do Estado, representações no Ministério Público de São Paulo e reunião com o Subprocurador-Geral de Justiça do órgão.

O governo de São Paulo, por meio da Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), informou que “recebeu um ofício com solicitações da comunidade universitária e intensificou a atuação das forças policiais na região do campus. A pasta também mantém contato constante com a Guarda Universitária, a Reitoria e o corpo docente da instituição”.

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