As atenções do empresariado brasileiro, afetado pelo aumento nas tarifas de importação, estiveram voltadas para Washington nesta quinta-feira (16). O dia marcou a reunião decisiva entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o chefe do Departamento de Estado norte-americano, Marco Rubio.

Este encontro pode representar um passo crucial para destravar a agenda comercial entre os dois países, paralisada desde agosto. Empresários brasileiros apostavam nesta primeira negociação direta para buscar a revisão ou retirada das sanções tarifárias.

Contexto da reunião em Washington: A sombra da censura e direitos humanos

O encontro em Washington, capital dos Estados Unidos, ocorreu sob o peso de uma declaração anterior pouco favorável ao Brasil. Na véspera, o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, reafirmou a motivação da medida tarifária, citando “sérias preocupações com o Estado de Direito, censura e direitos humanos” no país sul-americano.

Greer chegou a mencionar que a maior parte da tarifa adicional de 40% (além dos 10% da tarifa recíproca) estava ligada a questões políticas, como a ordem para que empresas americanas se autocensurem, referindo-se implicitamente a decisões do Judiciário brasileiro.

Encontro e expectativas do governo brasileiro

Apesar do sinal aparentemente contrário a uma rápida revisão das sanções, o ministro Mauro Vieira se reuniu com Marco Rubio com a missão de negociar. O chanceler brasileiro reiterou a posição do Brasil pela necessidade de reversão das tarifas adotadas desde julho, conforme já havia sido transmitido pelo presidente Lula ao presidente Trump em contato anterior.

Segundo relatos, a conversa, que incluiu um diálogo a sós e outro ampliado com equipes técnicas, foi considerada “muito produtiva” e em um “clima excelente”, prevalecendo uma “atitude construtiva” com vistas à retomada das negociações. As equipes técnicas de ambos os países foram escaladas para, em breve, começar a discutir medidas para reverter o “tarifaço”.

Atuação paralela e a aposta bolsonarista

Um dia antes do encontro oficial entre Mauro Vieira e Marco Rubio, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo foram recebidos por representantes do governo de Donald Trump. Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo têm atuado nos Estados Unidos, articulando com membros da extrema-direita americana a imposição de sanções contra o Brasil, com o objetivo declarado de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o sistema eleitoral brasileiro.

A aliança da família Bolsonaro com líderes da direita norte-americana antecede o anúncio do tarifaço e é vista por alguns como pavimentando o caminho para as barreiras comerciais, citando preocupações políticas como as que foram posteriormente usadas por Jamieson Greer para justificar as tarifas. A agenda de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo em Washington, paralelamente à diplomacia oficial, evidencia as tensões políticas internas brasileiras que se projetam nas relações externas e no impasse comercial.

As negociações e o futuro comercial Brasil-EUA

O encontro entre Vieira e Rubio não resultou no fim imediato do tarifaço, mas estabeleceu os próximos passos para a retomada das negociações técnicas. O diálogo, focado inicialmente nos temas comerciais, busca reverter a paralisação da agenda bilateral desde agosto. O governo brasileiro, ao priorizar o pragmatismo econômico, tenta desvincular o comércio das questões políticas e ideológicas levantadas pelo governo Trump.

A expectativa é que o diálogo avance, possivelmente culminando em um encontro futuro entre os presidentes Lula e Trump, demonstrando que, para os Estados Unidos, o interesse comercial e geopolítico (como a disputa por terras raras) pode prevalecer sobre as divergências políticas, apesar da pressão exercida por aliados brasileiros do presidente norte-americano.

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